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Empresários querem mexicanizar o Brasil, diz ministro
Sáb, 04 de Outubro de 2014 09:00

Empresários querem mexicanizar o Brasil, diz ministroO ministro do Desenvolvimento, Mauro Borges, está inconformado com as críticas que a presidente Dilma Rousseff vem recebendo de empresários na campanha eleitoral.

"Os empresários não querem política industrial ativa? Querem que a economia brasileira se ´mexicanize´, transformando a indústria em uma linha de montagem?", disse Borges em entrevista à Folha.

Ele se refere à indústria maquiladora que dominou a economia mexicana nos anos 90, fez do país um pólo de montagem, e se erodiu com a transferência da produção para a China, sem ter desenvolvido a economia local.

Para Borges, o Brasil perdeu saldo comercial por ser uma economia muito aberta. O ministro rechaça críticas de que Dilma não dialogue com o setor produtivo, e afirma que as empresas voltarão a investir depois da eleição.

Folha - Por que as empresas não estão investindo?
Mauro Borges - Vivemos um período de transição. Houve um ciclo de expansão na economia mundial, que tem um processo de esgotamento. O ciclo brasileiro foi colado ao global, mas não há dúvida de que a economia brasileira está se preparado para uma nova expansão. Estamos criando as condições, e tem um ajuste, pois o esforço anticíclico da economia brasileira [medidas para estimular o crédito quando o crescimento desacelera] foi muito forte. Também há um fator de curtíssimo prazo: a eleição. Em qualquer lugar do mundo, isso cria expectativa em relação a política econômica do próximo governo.

Os empresários reclamam do intervencionismo do governo.
Eles têm razão em alguns aspectos, mas não em outros. Várias regras do jogo não estão bem definidas, e é obrigação do Estado estabelecer marcos regulatórios para as concessões. As regras das agências regulatórias também estão em maturação. Mas tem um lado obscuro da queixa empresarial. A politica industrial é intervencionista? Os países ricos são desenvolvidos porque tiveram uma politica industrial ativa. Os empresários não querem política industrial ativa? Querem deixar para o mercado resolver falhas inerentes a esse sistema? Ao inovar, a empresa não sabe o resultado, o que gera risco. O Estado entra para reduzir a incerteza e subsidiar o setor privado. Que empresários se queixam? Os industriais que recebo louvam a atitude do governo. São empresários do setor financeiro?

Os empresários reclamam da falta de diálogo com a presidente e de aparecerem como vilões da campanha.
A imprensa divulga isso de forma fantasiosa. A presidenta recebeu diversas vezes o Fórum Nacional da Indústria para discutir uma pauta comum. O ministro Guido Mantega (Fazenda) recebe empresários semanalmente. Eu devo ter recebido [desde fevereiro, quando assumiu] mais de 300 empresários. Essa reclamação é propaganda enganosa de empresários que são contra a presidenta.

Pedro Passos, presidente do Iedi (que reúne os grandes empresários brasileiros), diz que o Brasil precisa abrir sua economia para ser mais competitivo.
Ele está equivocado. Em última instância, a visão dele é que a abertura comercial é um instrumento de política industrial. Essa visão, vocalizada pelos candidatos da oposição, seria um desastre para a indústria brasileira. Os empresários têm pedido mais proteção. A política comercial é favorável à competitividade, desde que acompanhada de política industrial ativa. Nenhum país fez abertura comercial unilateral.

O argumento é que a abertura da economia baratearia o custo dos insumos no Brasil, como aço ou produtos químicos.
Isso esvaziaria as cadeias produtivas, caminharíamos para a mexicanização, transformando nossa indústria em linha de montagem. Se os candidatos de oposição defendem isso, têm que explicitar. Significa renunciar a um esforço de industrialização de 50 anos. Defendo a política comercial com política industrial ativa. Uma coisa sem a outra não para de pé.

Os críticos dizem que Dilma focou a política industrial e esqueceu a comercial. O Brasil não fechou nenhum acordo de livre comércio.
Quem fechou acordo nesse período de transição da economia global? O acordo transpacífico, entre EUA e países da Ásia, não andou. Já teve 18 reuniões e não avançou. O acordo entre EUA e Europa também não. Houve um grande aumento de protecionismo. Com a recessão, houve excesso de produtos manufaturados, o que aumentou as práticas desleais de comércio. O mundo ficou mais fechado. O comércio global está estagnado há quatro anos.

O superavit brasileiro caiu de US$ 20 bilhões para quase zero no governo Dilma. Por quê?
Porque somos uma economia relativamente aberta. Se fosse o contrário, teríamos segurado uma parte importante das importações que substituíram a produção nacional. Viramos destino do excedente de manufaturados do mundo e fomos dizimados por importações desleais. Por isso somos campeões de medidas de defesa comercial.

Por que o acordo com a União Europeia não saiu?
O Brasil fez o dever de casa. Concluímos a oferta há mais de um ano. Iniciamos as negociações com os parceiros do Mercosul para uma oferta única, que foi concluída. Só que os europeus não fecharam a sua oferta. Não vamos fazer uma oferta unilateral.

Por que o Brasil nunca negociou um acordo com os EUA?
Temos que retomar com profundidade essa relação, que é antiga e importante. No momento, sou contra um acordo de livre comércio com os EUA, pois as duas economias não estariam preparadas. Não seria aprovado pelo Congresso americano e não é prioridade para o Brasil. As tarifas de importação entre os dois países são muito baixas. O grande avanço nos acordos tem que ser regulatório, como eliminar a bitributação dos investimentos. Não entendo porque a culpa é do Brasil. Os EUA têm tanta dificuldade quanto nós. Os economistas ligados aos outros candidatos acham que devemos nos submeter às regras dos americanos? Vamos abrir mão da soberania? Temos que aprofundar o debate, que não pode ser apenas eleitoreiro.

Pelas metas do Plano Brasil Maior, os investimentos deveriam ter atingido 22,4% do PIB. A expectativa é que fiquem abaixo de 18%. A política industrial deu certo?
O Plano Brasil Maior é um sucesso. Ele impediu a recessão. Se a indústria tivesse um desemprego crônico, puxaria a economia para a recessão. Seguramos o emprego por três anos em um momento de desaceleração mundial. O segundo ganho do plano é estabelecermos fundamentos para um novo ciclo de expansão com uma indústria mais competitiva. As condições estão amadurecendo.

Que condições são essas?
Podemos comparar Brasil e China. No ciclo anterior, os vetores de crescimento da China foram exportação e investimento; no Brasil, exportação e consumo. Estamos virando um país de classe media, com redução da pobreza e da desigualdade. E estamos invertendo [a posição] com a China. No Brasil, o investimento será o grande vetor, puxando o consumo.

Muitos economistas dizem que as famílias estão endividadas e que esse modelo de crescimento se esgotou.
Não acredito nisso. O modelo brasileiro é inclusivo. Estamos em um processo de redução da desigualdade e da pobreza. O espaço para crescimento do consumo no Brasil é imenso. Só não vai ocorrer se o próximo governo não seguir com uma politica deliberada de inclusão social e distribuição de renda e voltarmos a um modelo concentracionista, com arrocho.

O resultado fiscal se deteriorou por causa desonerações para vários setores. Essa política será mantida?
O ministro Mantega deixou claro que o componente anticíclico [medidas que vão contra o que o momento econômico sugere, como estimular consumo durante uma desaceleração ou elevar juros em momentos de expansão] seria eliminado e que manteria os elementos estruturais. A desoneração da folha de pagamentos, por exemplo, veio para ficar. Já a redução de IPI sobre móveis, eletrodomésticos e carros tende a voltar à normalidade.

Fonte: Centro de Pesquisas - Folha de S. Paulo

 

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